África
Noutros tempos, a África, que se acreditava ser habitada por seres inferiores, foi considerada «o fardo do homem branco». Enquanto ia sendo despovoada, espoliada e repartida, claro. Hoje, novas idéias feitas, eivadas de preconceitos, racismo e, até, de ímpetos neocolonialistas, continuam a prevalecer.
África está na ordem do dia. E, um pouco por todo o mundo, governos, organismos internacionais e organizações não governamentais esboçam planos para «salvar» o continente mais pobre e mais martirizado. Os planos sucedem-se, os pontos de vista variam. Mas as idéias que os enformam, venham elas de ocidentais bem-intencionados ou dos próprios africanos, tendem a repetir estereótipos que parecem explicar algo aparentemente inexplicável: por mais voltas que se dê, por mais ajudas de emergência ou projetos de desenvolvimento, a realidade é que o rendimento por habitante continua a ser inferior ao que era nos anos 60.
Para a opinião pública, bombardeada pelos meios de comunicação com imagens que apresentam apenas a face negra do continente negro – crianças a morrer, deslocados e refugiados, conflitos velhos ou novos, ditadores corruptos –, a África Subsariana não tem cura, e a culpa só pode ser dos próprios africanos. Vêm então ao de cima visões mais ou menos racistas, que culminam num fatalista: «eles» são assim, sempre foram assim, não há nada a fazer. Há até quem, com toda a seriedade, proponha uma nova colonização, como forma de cuidar de criaturas menores, que não sabem tomar conta de si mesmas. Mais uma forma de, na fantasia de «homens modernos e evoluídos», povoar essa África preconcebida de seres irracionais. Afinal, não muitos distantes das «criaturas simiescas» que em pleno século XIX se exibiam nos zoos ou nas feiras de algumas metrópoles coloniais do «mundo civilizado».
A pobreza na riqueza
Estes preconceitos, que também encontram a sua contrapartida nas simplificações que são expressas pelos próprios africanos – que ora atribuem ao traçado arbitrário das fronteiras pelos antigos poderes coloniais ora ao despovoamento outrora causado pelo tráfico de escravos para a América o persistente atraso –, cansaram Georges Courade, o responsável pela investigação do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, que decidiu reunir 30 especialistas para desmontarem, uma a uma, as 50 idéias feitas mais comuns sobre a África Subsariana.
Desse cansaço, e também de uma conjugação de indignação e de desejo de clareza científica, nasceu o livro L’Afrique des Idées Reçues. Na epígrafe que escolheu para o seu texto de abertura, que enquadra as respostas à meia centena de perguntas, uma citação diz muito acerca do seu programa: «Sabe-se tudo sobre a maneira como morrem os africanos e nada sobre a maneira como eles vivem.»
O livro abre com a idéia porventura mais difundida: a abundância de recursos naturais deveria permitir o desenvolvimento da África. Esta aparente evidência é cuidadosamente desmontada por Sylvain Guyot, num desapaixonado e rigoroso texto que, embora correndo o risco de desrespeitar o seu rigor, se poderia resumir numa só citação: «Dá-se o caso de as riquezas naturais permitirem o enriquecimento rápido, e só raramente o desenvolvimento. É assim que, em 2004, segundo o Banco Mundial, oitenta por cento das receitas do petróleo nigeriano beneficiaram apenas um por cento da população.»
Para enriquecer Mobutu
Uma outra idéia não menos generalizada: a África recebe mais dinheiro do que aquele que paga. Nesta «constatação» aparentemente inócua baseiam-se, porém, muitas imagens de um continente-mendigo, que vive à custa da comunidade internacional e de doadores bondosos – que, aliás, mesmo nas maiores emergências humanitárias, vão doando cada vez menos à medida que os anos passam. Após uma análise fria dos números, concluem Marie Poussart-Vanier e o próprio Georges Courade: «A África reembolsa mais dinheiro a título de serviço da dívida do que aquele que recebe a nível de ajuda pública. O serviço da dívida, em termos de capitais e juros, contribui, juntamente com a fuga de capitais, para aumentar a riqueza dos países credores, enquanto a ajuda e os investimentos dos países ocidentais diminuem devido ao “rigor orçamental” e à fraca capacidade de atracção que o subcontinente exerce sobre os investidores privados.»
«Se é verdade que assistimos ao renascimento do seu interesse geoestratégico, os subsídios concedidos aos produtores do Norte impedem-no de valorizar as suas exportações e, nomeadamente, de desenvolver as suas produções agrícolas. Resta pôr a questão da eficácia desta ajuda financeira no que toca a melhorar as condições de vida dos mais desfavorecidos. E, se a questão da anulação total da dívida se torna cada vez mais actual, ainda assim não passaria de um primeiro passo.» Não resistimos à tentação de transcrever mais uma vez uma citação escolhida para epígrafe: «Quando o FMI e o Banco Mundial emprestavam dinheiro a Mobutu, sabiam que no essencial essas verbas não iriam servir para ajudar os pobres do país mas para enriquecer Mobutu.»
Finalmente, chegamos a uma idéia tão repetida que se tornou uma «verdade» incontestada, de tal modo que encontra eco na própria África nos mais diversos sectores: a corrupção é uma «questão africana», implicando o Estado e os responsáveis públicos
A corrupção multinacional
Os dedos apontados aos líderes corruptos da África são incontáveis. Mas é raro que alguém aponte um dedo ao seu próprio peito. Quando na verdade podia e devia ser apontado, por exemplo à City londrina: «O congelamento de um milhar de milhões de dólares de Arap Moi e a reciclagem de cinco milhares de milhões de fundos sujos de Abacha mostram que a gestão do patrimônio dos ditadores é uma atividade muito lucrativa.» Poder-se-iam apontar também gigantes como a Elf-Aquitaine ou a Shell e as avultadas luvas distribuídas pelos dirigentes que seguram a torneira do petróleo no golfo da Guiné.
Um combate internacional
Segundo Owona, «apesar do seu crescimento exponencial no subcontinente, a corrupção não pode ser considerada como uma tara congênita de sociedades onde existe a prática do “pequeno presente”. Flagelo que afeta todos os países (do mundo), está também ligada ao branqueamento de dinheiro sujo, aos paraísos fiscais, ao crime organizado, às máfias, ao grande banditismo e ao terrorismo. A sua expansão foi sem dúvida acelerada pela campanha contra o serviço público orquestrada no quadro da ideologia neoliberal e pelas falhas do Estado, mas sobretudo pelo empobrecimento maciço da população». Para o autor, num tal quadro, qualquer combate ao fenômeno da corrupção passa pela cooperação internacional. Mas não só: «Como propuseram alguns juízes europeus, haveria vantagem em criar uma jurisdição internacional encarregada de qualificar e de sancionar os crimes de grande corrupção.
Entre as 50 idéias feitas, há-as de todos os tipos. Como: A sida (AIDS) vai riscar a África do mapa do mundo, Só os africanos mais pobres é que emigram para a Europa – na verdade, acontece precisamente o contrário –, As queimadas esgotam os solos ou A floresta recua enquanto O deserto avança. Mas também O tribalismo explica todos os conflitos, As guerras atuais são mais numerosas, mais mortíferas, mais predadoras e mais bárbaras ou A escravatura já não existe na África.
Um tráfico com 13 séculos
A propósito do tráfico de escravos, que tem sido invocado em várias instâncias e em vários setores africanos como razão mais do que suficiente para pedir uma indenização ao Ocidente, há uma idéia (des)feita particularmente interessante: o tráfico negreiro foi da exclusiva responsabilidade dos europeus. Neste caso, Sylvain Guyot, embora reconhecendo que os negreiros portugueses, espanhóis, franceses ou ingleses foram responsáveis pelo «comércio» mais bem organizado, mais sistemático e mais notório durante quatro séculos, salienta que não são os únicos vilões da história.
Escreve o autor: «Durante 13 séculos, o tráfico foi também transariano, interno e oriental, e implicou árabes e africanos.» Citando dados geralmente aceites, refere: «O conjunto de tráficos terá conduzido à deportação de cerca de 42 milhões de pessoas, das quais 17 no âmbito do tráfico oriental (40 por cento), 14 do tráfico atlântico e 11 do tráfico interno.» Guyot lembra que, na África, se tratava de uma prática tão antiga como o Antigo Egito. E que, encontrando-se forçosamente associado a uma idéia de superioridade, esse racismo existiu tanto da parte dos europeus como dos árabes. Que aliás possuem um provérbio sobre os negros que reza assim: «Quando esfomeados, roubam, e, quando saciados, violam.» Pelos vistos, as idéias feitas não florescem só no Ocidente. Um dado revelador: na Arábia Saudita, a escravatura foi ilegalizada apenas em 1962.
África
A continuidade dos conflitos armados, o avanço de epidemias e o agravamento da miséria marcam a história recente da África e contribuem para o isolamento econômico do continente. Algumas nações alcançam relativa estabilidade política e desenvolvimento: é o caso da África do Sul, responsável por um quinto do PIB africano, graças à exportação de ouro, minério de ferro, diamante e carvão e a maciços investimentos no parque industrial, e dos países árabes da chamada África Branca, ao norte, como Líbia, Argélia e Egito, onde a economia está baseada na exploração de petróleo e gás natural. Enquanto isso, a região da África Subsaariana, que abrange os países de população negra situados ao sul do deserto do Saara, é a única área do planeta que regrediu economicamente em relação à década de 60. O continente é marcado também pelos conflitos etno-religiosos, tanto entre clãs e tribos na África Negra, quanto entre guerrilheiros fundamentalistas e o governo nos países islâmicos.
Após o processo de descolonização, entre as décadas de 1950 e 1970, as guerras civis tornaram-se constantes na região da África Subsaariana, já que as fronteiras políticas dos Estados nascentes não obedeceram às divisões étnicas, religiosas e lingüísticas dos povos nativos. Desde então, cerca de 20 nações africanas já entraram em guerra. As ricas reservas de minérios, com enorme potencial para impulsionar o desenvolvimento econômico, funcionam, ao contrário, como motor de alguns conflitos.
Há fome e subnutrição crônica em quase 20 países. O maior problema na área da saúde é a propagação de epidemias. Cerca de 90% dos casos mundiais de malária ocorrem na África Subsaariana e 71% dos portadores do vírus HIV no planeta vivem na região. Em Botsuana e Zimbábue a Aids atinge 1 em cada 4 adultos. Por causa da SIDA (AIDS), a expectativa de vida dos africanos cai drasticamente. Em 1990, ela era de 59 anos e até 2005 deve baixar para 45 anos.
O atraso econômico e a ausência de uma sociedade de consumo em larga escala colocam o mercado africano em segundo plano no mundo globalizado. O Produto Interno Bruto (PIB) da África representa apenas 1% do total mundial e o continente participa de apenas 2% das transações comerciais que acontecem no mundo (participava de 6% nos anos 60). O resultado é que 260 dos 600 milhões de habitantes da África vivem com até um dólar por dia, abaixo do nível de pobreza definido pelo Banco Mundial. Impulsionado pelo crescimento da África do Sul, o bloco econômico SADC (formado por 14 países) se firma como o pólo mais promissor do continente. Nos países do mundo árabe, ao norte, a exploração de petróleo e gás natural traz riqueza a nações como Argélia, Líbia e Nigéria, apesar da oscilação do preço desses produtos no mercado internacional.
Características físicas - Um terço do território é ocupado pelo deserto do Saara (8,6 milhões de km2). Nessa parte árida, porém, se localiza uma das regiões mais férteis do globo: a faixa de terra banhada pelo rio Nilo. Na porção úmida equatorial, encontram-se as florestas tropicais, que perdem densidade e se transformam em savanas à medida que se distanciam para regiões mais secas, ao norte e ao sul. A cobertura vegetal tem sido reduzida pelo desmatamento, e o aumento das áreas desérticas é um dos principais problemas ambientais do continente. O litoral é regular, com poucas ilhas. O clima é quente (equatorial ou tropical) na maior parte do território, exceto nas extremidades sul e norte, onde é temperado.
Religião e idioma - Ao lado de cultos animistas, praticam-se o islamismo, o cristianismo e o hinduísmo. Predominam as línguas e os dialetos do tronco africano e do tronco camito-semítico. É grande a influência do português, do francês e do inglês, idiomas dos principais grupos colonizadores.
Noutros tempos, a África, que se acreditava ser habitada por seres inferiores, foi considerada «o fardo do homem branco». Enquanto ia sendo despovoada, espoliada e repartida, claro. Hoje, novas idéias feitas, eivadas de preconceitos, racismo e, até, de ímpetos neocolonialistas, continuam a prevalecer.
África está na ordem do dia. E, um pouco por todo o mundo, governos, organismos internacionais e organizações não governamentais esboçam planos para «salvar» o continente mais pobre e mais martirizado. Os planos sucedem-se, os pontos de vista variam. Mas as idéias que os enformam, venham elas de ocidentais bem-intencionados ou dos próprios africanos, tendem a repetir estereótipos que parecem explicar algo aparentemente inexplicável: por mais voltas que se dê, por mais ajudas de emergência ou projetos de desenvolvimento, a realidade é que o rendimento por habitante continua a ser inferior ao que era nos anos 60.
Para a opinião pública, bombardeada pelos meios de comunicação com imagens que apresentam apenas a face negra do continente negro – crianças a morrer, deslocados e refugiados, conflitos velhos ou novos, ditadores corruptos –, a África Subsariana não tem cura, e a culpa só pode ser dos próprios africanos. Vêm então ao de cima visões mais ou menos racistas, que culminam num fatalista: «eles» são assim, sempre foram assim, não há nada a fazer. Há até quem, com toda a seriedade, proponha uma nova colonização, como forma de cuidar de criaturas menores, que não sabem tomar conta de si mesmas. Mais uma forma de, na fantasia de «homens modernos e evoluídos», povoar essa África preconcebida de seres irracionais. Afinal, não muitos distantes das «criaturas simiescas» que em pleno século XIX se exibiam nos zoos ou nas feiras de algumas metrópoles coloniais do «mundo civilizado».
A pobreza na riqueza
Estes preconceitos, que também encontram a sua contrapartida nas simplificações que são expressas pelos próprios africanos – que ora atribuem ao traçado arbitrário das fronteiras pelos antigos poderes coloniais ora ao despovoamento outrora causado pelo tráfico de escravos para a América o persistente atraso –, cansaram Georges Courade, o responsável pela investigação do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, que decidiu reunir 30 especialistas para desmontarem, uma a uma, as 50 idéias feitas mais comuns sobre a África Subsariana.
Desse cansaço, e também de uma conjugação de indignação e de desejo de clareza científica, nasceu o livro L’Afrique des Idées Reçues. Na epígrafe que escolheu para o seu texto de abertura, que enquadra as respostas à meia centena de perguntas, uma citação diz muito acerca do seu programa: «Sabe-se tudo sobre a maneira como morrem os africanos e nada sobre a maneira como eles vivem.»
O livro abre com a idéia porventura mais difundida: a abundância de recursos naturais deveria permitir o desenvolvimento da África. Esta aparente evidência é cuidadosamente desmontada por Sylvain Guyot, num desapaixonado e rigoroso texto que, embora correndo o risco de desrespeitar o seu rigor, se poderia resumir numa só citação: «Dá-se o caso de as riquezas naturais permitirem o enriquecimento rápido, e só raramente o desenvolvimento. É assim que, em 2004, segundo o Banco Mundial, oitenta por cento das receitas do petróleo nigeriano beneficiaram apenas um por cento da população.»
Para enriquecer Mobutu
Uma outra idéia não menos generalizada: a África recebe mais dinheiro do que aquele que paga. Nesta «constatação» aparentemente inócua baseiam-se, porém, muitas imagens de um continente-mendigo, que vive à custa da comunidade internacional e de doadores bondosos – que, aliás, mesmo nas maiores emergências humanitárias, vão doando cada vez menos à medida que os anos passam. Após uma análise fria dos números, concluem Marie Poussart-Vanier e o próprio Georges Courade: «A África reembolsa mais dinheiro a título de serviço da dívida do que aquele que recebe a nível de ajuda pública. O serviço da dívida, em termos de capitais e juros, contribui, juntamente com a fuga de capitais, para aumentar a riqueza dos países credores, enquanto a ajuda e os investimentos dos países ocidentais diminuem devido ao “rigor orçamental” e à fraca capacidade de atracção que o subcontinente exerce sobre os investidores privados.»
«Se é verdade que assistimos ao renascimento do seu interesse geoestratégico, os subsídios concedidos aos produtores do Norte impedem-no de valorizar as suas exportações e, nomeadamente, de desenvolver as suas produções agrícolas. Resta pôr a questão da eficácia desta ajuda financeira no que toca a melhorar as condições de vida dos mais desfavorecidos. E, se a questão da anulação total da dívida se torna cada vez mais actual, ainda assim não passaria de um primeiro passo.» Não resistimos à tentação de transcrever mais uma vez uma citação escolhida para epígrafe: «Quando o FMI e o Banco Mundial emprestavam dinheiro a Mobutu, sabiam que no essencial essas verbas não iriam servir para ajudar os pobres do país mas para enriquecer Mobutu.»
Finalmente, chegamos a uma idéia tão repetida que se tornou uma «verdade» incontestada, de tal modo que encontra eco na própria África nos mais diversos sectores: a corrupção é uma «questão africana», implicando o Estado e os responsáveis públicos
A corrupção multinacional
Os dedos apontados aos líderes corruptos da África são incontáveis. Mas é raro que alguém aponte um dedo ao seu próprio peito. Quando na verdade podia e devia ser apontado, por exemplo à City londrina: «O congelamento de um milhar de milhões de dólares de Arap Moi e a reciclagem de cinco milhares de milhões de fundos sujos de Abacha mostram que a gestão do patrimônio dos ditadores é uma atividade muito lucrativa.» Poder-se-iam apontar também gigantes como a Elf-Aquitaine ou a Shell e as avultadas luvas distribuídas pelos dirigentes que seguram a torneira do petróleo no golfo da Guiné.
Um combate internacional
Segundo Owona, «apesar do seu crescimento exponencial no subcontinente, a corrupção não pode ser considerada como uma tara congênita de sociedades onde existe a prática do “pequeno presente”. Flagelo que afeta todos os países (do mundo), está também ligada ao branqueamento de dinheiro sujo, aos paraísos fiscais, ao crime organizado, às máfias, ao grande banditismo e ao terrorismo. A sua expansão foi sem dúvida acelerada pela campanha contra o serviço público orquestrada no quadro da ideologia neoliberal e pelas falhas do Estado, mas sobretudo pelo empobrecimento maciço da população». Para o autor, num tal quadro, qualquer combate ao fenômeno da corrupção passa pela cooperação internacional. Mas não só: «Como propuseram alguns juízes europeus, haveria vantagem em criar uma jurisdição internacional encarregada de qualificar e de sancionar os crimes de grande corrupção.
Entre as 50 idéias feitas, há-as de todos os tipos. Como: A sida (AIDS) vai riscar a África do mapa do mundo, Só os africanos mais pobres é que emigram para a Europa – na verdade, acontece precisamente o contrário –, As queimadas esgotam os solos ou A floresta recua enquanto O deserto avança. Mas também O tribalismo explica todos os conflitos, As guerras atuais são mais numerosas, mais mortíferas, mais predadoras e mais bárbaras ou A escravatura já não existe na África.
Um tráfico com 13 séculos
A propósito do tráfico de escravos, que tem sido invocado em várias instâncias e em vários setores africanos como razão mais do que suficiente para pedir uma indenização ao Ocidente, há uma idéia (des)feita particularmente interessante: o tráfico negreiro foi da exclusiva responsabilidade dos europeus. Neste caso, Sylvain Guyot, embora reconhecendo que os negreiros portugueses, espanhóis, franceses ou ingleses foram responsáveis pelo «comércio» mais bem organizado, mais sistemático e mais notório durante quatro séculos, salienta que não são os únicos vilões da história.
Escreve o autor: «Durante 13 séculos, o tráfico foi também transariano, interno e oriental, e implicou árabes e africanos.» Citando dados geralmente aceites, refere: «O conjunto de tráficos terá conduzido à deportação de cerca de 42 milhões de pessoas, das quais 17 no âmbito do tráfico oriental (40 por cento), 14 do tráfico atlântico e 11 do tráfico interno.» Guyot lembra que, na África, se tratava de uma prática tão antiga como o Antigo Egito. E que, encontrando-se forçosamente associado a uma idéia de superioridade, esse racismo existiu tanto da parte dos europeus como dos árabes. Que aliás possuem um provérbio sobre os negros que reza assim: «Quando esfomeados, roubam, e, quando saciados, violam.» Pelos vistos, as idéias feitas não florescem só no Ocidente. Um dado revelador: na Arábia Saudita, a escravatura foi ilegalizada apenas em 1962.
África
A continuidade dos conflitos armados, o avanço de epidemias e o agravamento da miséria marcam a história recente da África e contribuem para o isolamento econômico do continente. Algumas nações alcançam relativa estabilidade política e desenvolvimento: é o caso da África do Sul, responsável por um quinto do PIB africano, graças à exportação de ouro, minério de ferro, diamante e carvão e a maciços investimentos no parque industrial, e dos países árabes da chamada África Branca, ao norte, como Líbia, Argélia e Egito, onde a economia está baseada na exploração de petróleo e gás natural. Enquanto isso, a região da África Subsaariana, que abrange os países de população negra situados ao sul do deserto do Saara, é a única área do planeta que regrediu economicamente em relação à década de 60. O continente é marcado também pelos conflitos etno-religiosos, tanto entre clãs e tribos na África Negra, quanto entre guerrilheiros fundamentalistas e o governo nos países islâmicos.
Após o processo de descolonização, entre as décadas de 1950 e 1970, as guerras civis tornaram-se constantes na região da África Subsaariana, já que as fronteiras políticas dos Estados nascentes não obedeceram às divisões étnicas, religiosas e lingüísticas dos povos nativos. Desde então, cerca de 20 nações africanas já entraram em guerra. As ricas reservas de minérios, com enorme potencial para impulsionar o desenvolvimento econômico, funcionam, ao contrário, como motor de alguns conflitos.
Há fome e subnutrição crônica em quase 20 países. O maior problema na área da saúde é a propagação de epidemias. Cerca de 90% dos casos mundiais de malária ocorrem na África Subsaariana e 71% dos portadores do vírus HIV no planeta vivem na região. Em Botsuana e Zimbábue a Aids atinge 1 em cada 4 adultos. Por causa da SIDA (AIDS), a expectativa de vida dos africanos cai drasticamente. Em 1990, ela era de 59 anos e até 2005 deve baixar para 45 anos.
O atraso econômico e a ausência de uma sociedade de consumo em larga escala colocam o mercado africano em segundo plano no mundo globalizado. O Produto Interno Bruto (PIB) da África representa apenas 1% do total mundial e o continente participa de apenas 2% das transações comerciais que acontecem no mundo (participava de 6% nos anos 60). O resultado é que 260 dos 600 milhões de habitantes da África vivem com até um dólar por dia, abaixo do nível de pobreza definido pelo Banco Mundial. Impulsionado pelo crescimento da África do Sul, o bloco econômico SADC (formado por 14 países) se firma como o pólo mais promissor do continente. Nos países do mundo árabe, ao norte, a exploração de petróleo e gás natural traz riqueza a nações como Argélia, Líbia e Nigéria, apesar da oscilação do preço desses produtos no mercado internacional.
Características físicas - Um terço do território é ocupado pelo deserto do Saara (8,6 milhões de km2). Nessa parte árida, porém, se localiza uma das regiões mais férteis do globo: a faixa de terra banhada pelo rio Nilo. Na porção úmida equatorial, encontram-se as florestas tropicais, que perdem densidade e se transformam em savanas à medida que se distanciam para regiões mais secas, ao norte e ao sul. A cobertura vegetal tem sido reduzida pelo desmatamento, e o aumento das áreas desérticas é um dos principais problemas ambientais do continente. O litoral é regular, com poucas ilhas. O clima é quente (equatorial ou tropical) na maior parte do território, exceto nas extremidades sul e norte, onde é temperado.
Religião e idioma - Ao lado de cultos animistas, praticam-se o islamismo, o cristianismo e o hinduísmo. Predominam as línguas e os dialetos do tronco africano e do tronco camito-semítico. É grande a influência do português, do francês e do inglês, idiomas dos principais grupos colonizadores.
Fontes: África Hoje: idéias (des)feitas http://www.alem-mar.org,: MANUEL GIRALDES, Jornalista
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