terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Conto: MATHEUS

 

MATHEUS

Flúvia Félix

É tudo ficção

 

Matheus bebia todos os dias que podia, pois não suportava a própria vida e invejava sua irmã, pois ela era tudo o que ele queria ser.

Marta, irmã de Matheus é inteligente e de personalidade forte, é a fortaleza de seus pais e ele era ... ele. Nunca se encaixou por mais que tentasse. E, em cada tentativa era mais dor que colecionava.

Ele advogado, jiujiteiro e instagramável eram estas as suas três palavras chaves.

Como advogado era razoável, como desportista era agressivo no tatame, no Insta era o gostoso e cobiçado advogado atlético. E essa imagem, todos os amigos das redes sociais compravam, por mais que, tivesse prazer em despertar a cobiça e a inveja de homens e de mulheres, sua frustação não desaparecia nunca, sempre estava lá, como a sombra que segue o corpo.

Ele ia e vinha de psicológicos, e sempre tinha a impressão de ter uma parede lhe bloqueando e não era capaz de ultrapassá-la. Nos piores momentos de ansiedade noturna acordava sempre num sobressalto, fugindo ou perseguindo algo que ele nunca lembrava o que era.

Todo domingo havia o almoço de família, com seus pais e a família de sua irmã. Por mais que, gostasse de seus sobrinhos, odiava a felicidade deles, porque pareciam propaganda de margarina. E, ouvir a reprovação da mãe por estar solteiro e sem filhos, e a “acusação” de sua possível libertinagem pelos homens lá estavam lhe causava desgosto.

No domingo de manhã, sempre falava para si, que não iria. Mas, o dever filial incutido na infância era mais forte e, lá estava ele a bater o ponto mais uma vez.

Naquele almoço, o assunto da vez era Miguel, e em como ele do nada resolveu virar bicha. Ouvir isso era desconfortável, pois ele era seu primo e eles tinham um bom relacionamento desde a infância. Mas, o pior era ver o nojo na cara dos seus pais e eles dizendo que ele tinha morrido para eles. Enquanto a família margarina concordava.

Como defende-lo para pessoas que são incapazes de ouvir? Cada um faz da vida o que quer. Isso seria visto como uma afronta pessoal e nunca um diálogo. Talvez seja, por isso, que nunca falou que ia ao psicólogo para não ser visto como fraco e demente, bastava os julgamentos desde a infância.

Apanhar e ouvir do seu próprio pai que, ele não era forte, e por isso, macho o suficiente, era por demais doloroso. E, que era mil vezes melhor, se ele tivesse nascido mulher, para não o envergonhar por ser franzino, e nunca ganhar uma luta.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Conto: HALLEY

 

HALLEY

FLÚVIA Félix

Tudo Ficção

Há 40 anos ouvi em um podcast famoso da época, acho, que o cometa Halley iria passar pela Terra novamente. Não sei o porquê isso me marcou, e a lembrança me acompanha até aqui.

Na época, fiquei pensando se eu estaria viva para vê-lo dar o ar da graça aos seres deste planeta que está em constante movimento, pois sobreviver ao COVID-19 e suas variantes foi um alivio muito grande, coisa que muitas famílias não puderam dizer.

Mas, não foi somente ao COVID-19 que veio ceifar a vida humana do planeta. Falar desta doença hoje é leve em comparação as outras que nos assolam nos dias atuais e muitas delas não são novas só estão fora do controle sanitário mesmo, malditos antivacinas e negacionistas do passado que teimam em sobreviver como as variantes de uma gripe.

A invasão que sofremos não veio pelo Estados Unidos, mas sim da França que veio “proteger” as nações indígenas restantes, foi um massacre dos índios nas reservas e dos brasileiros das cidades próximas. E por fim, eles os salvadores da nação indígena reivindicaram o território para si. A ONU que não deu um pio no início depois veio para dar ajuda humanitária no local do conflito e no fim está lá dona de um pedaço, o Estado ONU, quem diria?

Para o Brasil o saldo final foi perder todo o norte e pedaços do nordeste e centro-oeste brasileiro. E quando você acha que não poderia piorar os separatistas do sul do Brasil conquistaram um grande público, os neonazistas se juntaram a causa e as ideias de Estado Mínimo ficou mais popular do que a Lady Gaga ou a Beyoncé.

Os confrontos foram sangrentos como em qualquer guerrilha e o que sobrou do exército não teve chance, assim as “ajudas” que nos ferraram direitim. Sabe tem coisas que é melhor aceitar porque senão infartamos de tanta raiva, porque estava na cara que não ia dar certo essa ajuda de Organizações Criminosas e a mudança do tipo de governança. E olha que a tentativa de esconder isso foi vergonhosa. Mas, o Brasil não é para amadores, né!

O sudeste e o que sobrou do centro-oeste e nordeste formam hoje em 2061 o Brasil, e as relações de convivência no território não são lá as melhores. E por mais que o Imperador D. Erico IV peça que nos unamos isso não é suficiente. Tá difícil está monarquia republicana.

Já estou cansada. Quarenta anos esperando o cometa até que foi fácil, mas esperar para ver a paz com este povo machucado e com líderes que incentivam o rancor para se perpetuarem ... já estou de saco cheio. Quem sabe, vai mais um ciclo do Halley para a paz florescer.

Estou deitada aqui no chão do campinho e fico remoendo essas coisas, affff, mais gente chega e dou boa noite aos vizinhos que se juntam ao grupo de jovens aqui ao meu lado. A juventude é sempre bonita em suas apresentações, ninguém implica com os eles desde que sirvam ao exército.

Estamos todos aqui para ver o cometa. Muitos falam que é o fim do mundo ...

Para mim é a esperança, pois nos últimos anos ver o Halley é o que me alenta será a minha a benção e a minha recompensa, o algo que me falta nesta vida para eu partir plena e realizada.