segunda-feira, 14 de março de 2022

Poema: INTIMIDADE

 

INTIMIDADE

Flúvia Félix

Eu era dele.

Ele era meu.

Me sentia segura.

Deixei ele ver minha feridas,

Meus traumas,

Meus dramas,

Dei meu coração pra ele.

Pois, me sentia segura.

Mas, ...

Na vida sempre há um mas.

Que me desestruturou por completo

Tudo porque me abandonei na fantasia

Vivi meu Conto de fadas.

E ele acabou como uma batida de carro em alta velocidade

Como uma alma que se apega ao corpo vivo

E, a cada dia tentei reviver o passado

Mas, este já estava morto.

Se decompondo

Mostrando seus vermes.

Não houve o luto,

E todo dia havia o choro

E a saudade.

Por estar morta viva, não compreendia por que tanto lamento se eu estava viva.

Arrastei corrente invisíveis do trauma, drama e do coração que se partiu

O príncipe destronado ao meu lado

E, eu um cadáver errante

Nos unimos pela crença de q ...

Eu não sei.

Um amor?

O amor dos escombros de minha alma.

Que ficou lá tão pequeno e assustado como uma criança agredida

Mas, um dia o feitiço agoureiro dos contos de fada se desfaz

Devolvendo a carne e o ar a morta viva.

E a dor de outrora retorna ao corpo da sonhadora com a mesma força destrutiva.

Ela achou que desta vez seria despedaçada pelos novos golpes do seu antigo amor.

Porém, desta vez não.

Não voltaria ao cemitério que sua vida tornará.

Seu coração pulsa em seu peito e, como é bom se sentir VIVA!

E estar retomando aquilo que deu de bom grado e como um trapo velho foi tratado.

Não é fácil.

Não é fácil, ver que viveu como um zumbi

E como um escravo sem consciência construiu uma vida que até então não usufruía.

Só vivia porque ainda caminhava e reagia.

Recomeçar de onde cheguei

Só é bom porque sei que de onde vim não pretendo voltar.

Lembrar que antes do conto de fadas havia uma força que me sustentava é muito reconfortante,

Saber que dormi por um tempo e que acordei não tem preço.

No entanto, ficar acordada é lutar para não dormir,

É estar consciente e trabalhar para não voltar a abraçar a inconsciência.

E o príncipe?

Não sei.

Não tenho controle de suas ações e emoções.

Só posso ver os fatos.

E o trono?

Uma vez deposto, sempre deposto e está tudo bem.

E o amor?

Ah, este está se costurando.

E?

É isso. Ponto.

Agora é reconstruir e redescobrir como viver apesar da dor.

Descobri que há vida para além da dor.

Tem dias que dói mais, muito mais e menos do em um outro dia e a vida segue.

A dor é ferida aberta e úmida.

O tempo e a aceitação serão seus remédios.

Não posso fazer o outro não me machucar.

Mas, posso escolher até que ponto poderei ir sem me trair.

Hoje entendo que ser leal a mim e aos meus valores é que é o mais importante. 

E que só posso dar o meu coração a mim, eu que tenho de me responsabilizar por mim.

Eu sabia disso, e não entendo o porquê de fazer ao contrário.

A vida me dando experiência? Me ensinando lições?

Não sei o motivo, mas espero não repetir a lição.