MARLENE
Flúvia Félix
Tudo ficção
Marlene, uma jovem senhora politicamente correta, não há ninguém que
conteste isso, pois ela é assim.
Se tem uma coisa que ela ama é a família dela, tem orgulho da mãe que a
criou e a seu irmão sozinha com a ajuda da avó senhora religiosa, evangélica
daquelas igrejas que mais prega a temor ao diabo do que o amor a deus.
Deus este que Marlene entendeu desde a mais tenra idade ter os seus
eleitos.
Todos os dias Marlene pegava o ônibus para o trabalho, todo dia ida e
volta lotado e ela ia sempre cismando sobre a vida.
Formada em contabilidade, 03 vezes bateu na trave do concurso público e
atualmente desempregada.
Seu irmão Marcos é um policial militar comum sem grandes aspirações e com
o tempo esta se tornando alcoólatra e se nega a ir ao psicólogo, para que
afinal isso é coisa de doido.
Como ela vê é uma família normal, que todo domingo vão ao culto uns por
fé, outros por desencargo de consciência e por não ter lugar melhor para ir.
O que sempre despertava o interesse de todos eram os testemunhos dos
fiéis onde relatavam suas bênçãos, mas a mais esperada mesmo por todos eram os
testemunhos dos ex-presos e de seus altos e baixos que para Marlene era muito
novelístico e para seu irmão difícil de engolir, pois para ele uma vez bandido
sempre bandido afinal ele já reprendeu vários que já deram testemunhos.
As irmãs sempre a abordam para ser oficialmente integrante do corpo da
igreja, A Voz Retumbante de Cristo, ao que ela sempre se fazia de desentendida,
pois não haveria tanta fé assim nela para aceitar carregar tamanho fardo em
ficar ouvindo tagarelice de fiéis tão devotadas a fofocar a vida alheia.
Numa terça-feira a tardinha sua mãe Lina recebeu a visita da irmã Tiana,
ela era a responsável por espalhar, digo, informar a seu grupo de amigas as notícias
que todos queriam esconder.
E entre um copo de café fumegante e outro naquela tardinha quente ela
contou que Maria Auxiliadora que havia se casado com um ex-detento há seis
meses estava agora lá na casa do pastor para pedir oração por seu marido, pois
o mesmo andava nervoso e tinha lhe dado uns tapas. Mas, na verdade segundo
Tiana foi uns socos e a guria dela de 10 anos falou que o omi tava espiando ela
no banheiro e que esse era o verdadeiro motivo; ao que a mãe gritava ser
mentira da menina e que era o demônio tentando acabar com o casamento eleito do
senhor.
Menina, o pau tava pegando.
E como era de costume Tiana ia embora depois da janta.
Ouvir este tipo de notícia acontecer assim tão perto sempre deixava
Marlene inquieta, talvez isso sempre esbarrava em lembranças que a mesma tinha
enterrado.
No domingo no culto todos sabiam, mas nada diziam só olhavam e olhavam e
muitas se prontificavam para montar grupo de oração, pois só a oração e o
joelho no chão seriam capazes de vencer o inimigo. Procurara ajuda psicológica
para a família não era necessário, pois somente deus era suficiente.
Na quarta-feira o pior aconteceu ...
Jessika Maria a menina de 10 anos esta morta por tentar defender a mãe e
saiu em todos os sites de notícias, uma nota de pesar da igreja e a mãe chorar
pela filha e pelo marido, afffff ela ainda defende e é capaz de ir pagar
visita.
Marcos esta na sala de casa alterado pelo álcool e ninguém chega perto o
deixam lá, quieto em seu canto com suas latas. Marlene se aproxima e lhe
entrega mais uma lata e pergunta se tá tudo bem, ao que ele responde que sim.
Ela pensa que lhe entende a sua incapacidade de fazer o que quer e ao
mesmo tempo pensa em sua vida sem propósito e de como se sente inútil por estar
fora de sua área de atuação, e fazendo bicos para se manter. A vida é uma
merda!!!, mas isso você não diz em voz alta.
Vó Maria sempre a chama para matar as galinhas, os ratos, o cachorro
doente pois sabe que Marlene tem brios e não tem dó, mas, ao mesmo tempo que
tem orgulho de sua neta se preocupa por esta ainda não ter casado e aceitado
Jesus, teme por sua alma ....
Marlene cresceu ouvindo que os homens maus iriam ser castigados por deus,
mas somente poderiam ser perdoados se realmente se arrependerem do fundo do
coração. No entanto, para ela isso era uma conta que não batia e chegou à
conclusão que era dito isso para confortar o coração daqueles que tinham
parentes nesta situação.
Também cresceu ouvindo que bandido bom era bandido morto, mas isso era um
problema por que até mesmo os crentes amam a um bandido convertido como o
pastor que era estelionatário e agora é um homem recuperado em Cristo ...
velhos hábitos não mudam facilmente.
A igreja tinha um núcleo de evangelização no presídio da cidade e muitas
irmãs encontravam o marido lá, pena que na maioria das vezes não dava certo.
A mãe e a avó pegaram ela esta semana para lhe atazanar a vida com a
mesma amolação de sempre quando vai casar e se converter, quando, quando,
quando ... e os filhos, quem vai te ajuda na velhice?
Sinceramente só não as mandava para aquele lugar porque era bem educada e
isso era como um iô iô que vai e volta. Paciência ... E o Marcos para porque
não dizem o mesmo para ele?
Ele é o home e é concursado, agora você é mulher e mulher é diferente e
quando o tempo passa menos homens vão querer você.
Marlene revira os olhos e saí de casa indignada com o que ouviu, no
entanto, ela sabia que todos ao seu redor pensavam assim.
Ao andar por sua rua encontra uma colega de escola que a convida para ir
a sua casa conhecer sua filhinha e como Marlene não tava afim de ir para casa
ela vai e presencia uma cena desagradável.
Sabe quando entra num lugar e percebe que algo não está certo, foi o que
ela sentiu e o que viu realmente não lhe cabia, um cara que tava sendo tratado
como rei que maltratava a companheira e dava terror na filha mais velha.
Ao voltar para casa narra o que viu para a mãe e a avó ao que dizem que
só deus poderia ter misericórdia daquela família.
Ouvir isso foi como um soco em teu estomago e uma urgência começou a
gritar nela.
E ela sabia o que fazer. Uma voz cutuca sua cabeça lhe dizendo que tinha
de fazer algo para ajudar a ex-colega e deus não era a solução, tão pouco a polícia
poderia ajudar e a ex-colega era emocionalmente dependente do rei sem trono.
Dormiu mau e ao acordar a voz tava lá azucrinando como sempre só que com
mais intensidade. Era como uma música chiclete.
Dois dias depois Marlene vai à casa da ex-colega novamente e ela não
acredita que tava fazendo isso porque elas nunca foram próximas. A ex-colega
fica feliz pela visita pois Marlene sempre foi educada e muito tímida, uma boa
menina e agora uma boa mulher que se preocupava e lhe dava apoio nesta
tempestade que era a tua vida.
Quanto mais Marlene se aproximava, ouvia e observava a dinâmica familiar, mais a voz se avolumava e era como um canto de sereia irresistível e
assustador.
O rei lhe dava olhadas e fazia questão de esbarrar em Marlene e ela
fingia que não via, mas, isso não era o pior ... para ela era horrível o
tratamento deplorável a sua atual amiga, e flagrar o mesmo tipo de olhar
lançado a criança. Isso sim lhe era imperdoável...
Daquele momento em diante Marlene não teve paz, pois sabia que ninguém
acreditaria nela por mais honesta que fosse, pois o homem sempre nunca teria
teu comportamento questionado agora a sombra de uma mulher já nascia errada.
Ela tinha de agir...
Pensou em falar com o irmão, mas ele não poderia ajudar sem se
prejudicar, então estava sozinha e teria de ser rápida.
Ela sabia toda a rotina da casa e de como o rei era alérgico a abelhas e
marimbondos e sua aversão descabida ao mel, já que este não lhe causava nenhuma
alergia. Conseguir abelha na cidade era impossível agora marimbondos...
Marlene chamou sua colega para ir a igreja naquele domingo ao que ela
aceitou e foi com a guria e ela nem precisava perguntar pelo marido, as o fez
mesmo assim ao que ela falou que estava no bar a três quadras d igreja e
Marlene lhe olhou com compaixão e disse tenha fé. Tudo correu normalmente e
quem lhe visse no culto poderia atribuir sua empolgação ao espirito santo.
Marlene esperou dar meia-noite, a mãe dormia e o irmão prostrado no sofá
bêbado e babando e o cachorro como sempre latindo. Marlene sai pelo portão como
Marlene e carrega uma sacola e vai em direção a igreja e passa reto até a casa
ao lado entra pelo portão e coloca a camiseta e o boné vai até área do fundo e
pega uma caixa com marimbondos e sai pelo portão e vai até o bar vê o rei
sentado numa mesa perto da rua se aproxima pelas costas quebra uma garrafa de
cerveja na cabeça dele e larga o saco com os marimbondos no colo dele e sai, os
outros ao ver só levantam assustados com a garrafada e depois correm pelos
marimbondos e orei fica lá na cadeira com o seu presente.
No outro dia Marlene acorda com o telefone tocando e confere se tem
picadas no rosto.
E a dona Tiana tá lá na cozinha contando que o Jeff, o rei, morreu e que
o próprio diabo deve ter vindo busca-lo, pois ninguém viu nada. Ela tomando o
café e pensa, sinceramente dona Tiana faz um trabalho melhor do que a civil.