Iemanjá
Iê está no navio indo para o
desconhecido. De dentro das entranhas do barco ele sente o mar ir e vir num
movimento sem fim.
Os outros como ele estão
tristes e temerosos por seus destinos e amedrontados pelo oceano a sua volta.
Iê está pesaroso por sua família, pois em seu coração ele sabe que não os verá
mais nesta vida.
O barco balança noite e dia no
vai e vem das marés. Seus companheiros de viagem enjoam e vomitam o pouco que
tem doa seus estômagos.
Numa manhã Iê ouve os pássaros
e sabe que estão chegando e vê mais corpos serem carregados para cima para
serem jogados ao mar. E, pensa, numa forma de fugir, se acharem que está morto
ele terá uma chance.
Ele não se mexe. O cutucam com
varas. E, ele aguenta a dor da cutucada e prende a respiração. Logo voltam para
pegá-lo e ele ouve seus captores reclamando por sua morte.
Ele sente o sol queimar sua
pele e se alegra, sua cabeça bate aqui e ali sem o menor pudor ou cuidado para
com o corpo morto. É arrastado como um animal. É lançado a água salgada e
afunda com as correntes para o fundo que o abraça com o uma mãe amorosa.
Atordoado pela pressão da água
em seus ouvidos pensa em ficar nos braços de sua mãe água, porém um desejo
ardente pulsa em seu peito que o faz nadar para cima e subir para alcançar
respirar novamente o ar que há tudo dá a vida.
Ao subir não vê nada a sua
volta. Quanto tempo ele ficou embaixo da água? esse pensamento logo o abandona
e ele começa a nadar e a boiar clamando aos céus e ao mar que lhe conduza até a
terra.
O tempo passa, o sol começa a
fazer efeito em seus sentidos. E ele tem uma visão de luta e glória,
entre ele e seus captores, onde ele é o mar e, junto com os céus se lançam
furiosos contra o barco que o trouxe até ali. O barco é sacodido pelas ondas
bravias do mar, está peleja dura horas e dias. Até que o barco bate em um recife
e leva todos para o fundo.
Iê sorri, pois sabe que fez
justiça a todos que pereceram naquela embarcação e sabe que agora ele, será
lembrado pelos seus com honra. Seus feitos chegaram pelos sonhos aos seus
familiares e amigos. Iê aquele que traz a justiça pela água, Iê vive na água,
pois ela o acolheu quando mais precisou e por meio dela ele buscou justiça. Iê
e a água agora são um só.