quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Conto: Iemanjá

 

Iemanjá

 Flúvia Félix

Iê está no navio indo para o desconhecido. De dentro das entranhas do barco ele sente o mar ir e vir num movimento sem fim.

Os outros como ele estão tristes e temerosos por seus destinos e amedrontados pelo oceano a sua volta. Iê está pesaroso por sua família, pois em seu coração ele sabe que não os verá mais nesta vida.

O barco balança noite e dia no vai e vem das marés. Seus companheiros de viagem enjoam e vomitam o pouco que tem doa seus estômagos.

Numa manhã Iê ouve os pássaros e sabe que estão chegando e vê mais corpos serem carregados para cima para serem jogados ao mar. E, pensa, numa forma de fugir, se acharem que está morto ele terá uma chance.

Ele não se mexe. O cutucam com varas. E, ele aguenta a dor da cutucada e prende a respiração. Logo voltam para pegá-lo e ele ouve seus captores reclamando por sua morte.

Ele sente o sol queimar sua pele e se alegra, sua cabeça bate aqui e ali sem o menor pudor ou cuidado para com o corpo morto. É arrastado como um animal. É lançado a água salgada e afunda com as correntes para o fundo que o abraça com o uma mãe amorosa.

Atordoado pela pressão da água em seus ouvidos pensa em ficar nos braços de sua mãe água, porém um desejo ardente pulsa em seu peito que o faz nadar para cima e subir para alcançar respirar novamente o ar que há tudo dá a vida.

Ao subir não vê nada a sua volta. Quanto tempo ele ficou embaixo da água? esse pensamento logo o abandona e ele começa a nadar e a boiar clamando aos céus e ao mar que lhe conduza até a terra.

O tempo passa, o sol começa a fazer efeito em seus sentidos. E ele tem uma visão de luta e glória, entre ele e seus captores, onde ele é o mar e, junto com os céus se lançam furiosos contra o barco que o trouxe até ali. O barco é sacodido pelas ondas bravias do mar, está peleja dura horas e dias. Até que o barco bate em um recife e leva todos para o fundo.

Iê sorri, pois sabe que fez justiça a todos que pereceram naquela embarcação e sabe que agora ele, será lembrado pelos seus com honra. Seus feitos chegaram pelos sonhos aos seus familiares e amigos. Iê aquele que traz a justiça pela água, Iê vive na água, pois ela o acolheu quando mais precisou e por meio dela ele buscou justiça. Iê e a água agora são um só.