sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto: Beto

 

Conto: Beto

Flúvia Félix

Beto é um senhor de meia idade, mecânico e que abominava bares e festas regadas a bebidas. Chamava esses lugares de moradas do capeta.

Ele tinha uma história de família complicada, assim como todos ao seu redor.

Na juventude seu Beto era o Betão para as garotas e amigos e Betinho para dona Cecília sua mãe-avó. Ele foi criado pela avó, pois sua mãe sumiu no mundo com uma amiga, foram para os esteitis e nunca mandou notícias. Seu pai morreu de cirrose cedo.

A dona Cecília, trabalhava na feira noite e dia para dar o de bom e de melhor para seu Betinho. No início tudo ia bem, mas com a chegada da adolescência começa às dificuldades e as dores de cabeça para dona Cecília. Pobre mulher.

Na família dos De Paula há uma tradição de passar algo de valor para a próxima geração que seria uma maneira de manter a família unida. Bem, com dona Cecília o seu "legado" era um anel de rubi que seria passado para o seu Betinho quando este atingisse a maturidade e este para seus descendentes.

O problema é que o anel foi roubado e seu Beto não tinha um legado para passar adiante.

Seu Beto, hoje um senhor de certa idade e um tanto amargurado pela vida sempre vai a igreja de São Jorge acender uma vela religiosamente aos domingos e fica ali rezando e as vezes podemos vê-lo chorando silenciosamente. As beatas o olham com admiração e respeito e o julgam um devoto sem igual a nem um naquela paróquia, claro o padre não entra na comparação.

Mau sabem as más línguas que aquela vela e o choro eram porque seu Beto o mecânico sistemático e conservador amargurava em seu peito o remorso por ter sido um jovem inconsequente e se culpa pela morte de sua mãe dona Cecília.

Dona Cecília morreu do coração em idade avançada, isso era que todos sabiam. Mas para seu Beto, ela morreu foi de desgosto, por que ele, o seu amado filho-neto trilhou o caminho do mau.

Por um tris, ele não foi para a terra dos pés juntos, pois devia para seu traficante uma bela soma e, para pagá-la ele roubou o legado de sua amada mãe.

Quando ele voltou no outro dia com o rabo entre as pernas, o circo já estava armado. Sua mãe estava fria e esticada no caixão doado pela prefeitura.

Ver aquela cena o tocou de uma forma que ele virou do avesso e o Betão ou Betinho deixou de existir naquele dia.

Ele gastou tempo, esforço e arranjou dinheiro para tentar recuperar o legado de sua avó, e todas as suas tentativas não deram em nada.

E todo domingo ele acende uma vela e conta a sua querida avó que ele ainda não encontrou o anel.

2 comentários:

FRANCYSLENE PEREIRA NEVES disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Gostei !