IRENE
Flúvia Félix
Tudo é ficção.
Irene é professora há muito tempo e perdeu o entusiasmo pela educação, devido à falta de respeito, violência, empatia, solidariedade, enfim o ideal de civilidade humana se perdeu.
Todos os dias da semana ela cumpria a sua rotina pedagógica na escola Cassiano de Jesus, onde os estudantes eram mais dos mesmos pré-adolescentes e adolescentes indisciplinados até a alma e, nos seus mais de dez anos de magistério ela não cultivava a esperança de mudança. Na verdade, ninguém próximo a ela na profissão possuía.
São quase 7 horas da manhã de segunda-feira, e a escola, onde nos seus tempos de glória, como centro de ensino, não deixou pistas em suas paredes ou estrutura, está novamente sendo lugar das brigas de pátio.
Ela precisa atravessar o ringue escolar para cumprir sua carga horária de sua hora atividade semanal e tem o desprazer de presenciar o bestial espetáculo. Ela suspira e pensa: - O que será que Bhritanny roubou desta vez? E segue o seu caminho sem olhar para trás.
As duras penas e a pintura nova no carro a fez entender que isso se voltava contra qualquer professor ou profissional que ouse se interromper o circo estudantil "romano".
E, por fim, todos se embrutecem, entram no sistema ...
No outro dia, terça-feira, a aula é no 7º Ano, ou como a professora astróloga de revista nomeou, a setenaris fazendo alusão a Áries o signo. É desalentador ensinar História ou Geografia para uma turma com problemas pedagógicos de base, desinteresse e violentamente indisciplinados. Todas as turmas tem os mesmos problemas, mas cadeiras que voam e MMA ao vivo é só nesta. Foi tentado de tudo e até agora nada surtiu efeito.
Irene entra em na sala com a sua costumeira cara "animada" e pede os cadernos para dar o visto, pergunta sobre os trabalhos e reforça para que eles a procurem das 17 horas às 17 horas e 45 minutos naquele dia se eles quisessem ajuda. Suspira.
Irene vê um desenho incomum no caderno. Incomum para o dono do caderno, mas não para ela, pois já havia visto este mesmo tipo de desenho nos cursos de prevenção ao abuso e violência e por sua experiência as histórias sempre tinham um final dolorido e trágico para o menor que ficava estigmatizado. Pensou em deixar prá lá e deixou.
Saindo da escola Irene escuta um grupinho falando que queria matar o namorado da mãe e fugir porque ela gostava mais do macho dela do que dos filhos e que sempre arranjava um pior do que o outro.
Dirigindo pela rodovia relembra da conversa escutada e do desenho e pensa mais do mesmo em ciclo de violência que não se rompe.
Irene dorme. Seu sono como sempre é cheio de monstros que a perseguem. Remédios, terapias, terapia ocupacional e nada resolve ou alivia. Mas, nesta noite ao invés de correr dos monstros são eles que correm dela. Tanto sangue de monstro ... e acorda com a sensação de esperança. Mas, de quê?
Mais um dia em seu calvário, porém percebe-se levemente diferente do habitual. Não. Foi só um pesadelo. Estranho, mas diferente. Afinal, nem me lembro mesmo.
O alunos do 6º Ano como os outros tem os seus problemas pedagógicos de base, mas hoje na aula de Geografia eles estavam os mesmos, mas Irene estava elétrica e os alunos viram, ouviram e sentiram que a Bobanere, apelido dado por alunos, tinha quebrado finalmente e a notícia era como fogo no mato seco.
Na sala dos professores a notícia chegou antes dela colocar os pés lá. Quando ela entra, o silêncio reina e se adensa quase gruda nela como as nojentas gelecas dos alunos. Mas, ela vai até o seu lugar cativo e come o seu lanche como sempre e tudo volta ao normal ao seu redor.
No outro dia a coordenadora recebe a visita de uma barraqueira que se dizia mãe de um dos monstrinhos que frequentava a escola. E a escola ouvia os berros que para Irene mais pareciam uma vaca brava. Ela pede licença a turma em que estava e vai até o furdunço, pois ela sabia que seria chamada.
Alunos e o corpo docente vendo a Irene se dirigir com a aquela cara de pomba lesa de sempre não sabem se tem dó ou se ri.
Irene entra na coordenação sem se anunciar e pergunta: - Me chamaram?, a dita mãe avança e a joga contra a parede e a Coordenadora tira mãe de cima de Irene o que dá tempo da agredida se levantar e se preparar para o próximo ataque.
Sob o olhar aturdido da Coordenadora, ela vê a mãe com a cara em cima de sua mesa com o braço torcido e Irene calmamente a segurava e falando em seu ouvido: - Mamãe da Rhyanna certo? Ao que recebe um grunhido como confirmação, - pois bem, você virá na próxima reunião da escola e vai ajudar sem bater nela. Ao que a mãe responde: - Sua VACAAAAAAAAAAA!!!!!!!!! Vai quebrar meu braço!!!!!!. E Irene calmamente diz: - Ainda não, vou se não vier e vai ser naquele chiqueiro que você obriga a tua filha a viver. E sai como entrou.
A escola em peso nas janelas e portas veem a professora voltar a sala e continuar a aula normalmente.
No outro dia na escola não se fala de outra coisa e cada vez há uma história diferente, e todas são descartadas pois não preenchem os requisitos de não haver sangue, nariz ou ossos quebrados para nenhuma das partes.
Quinta-feira, no intervalo a professora de Português não se contem e pergunta a Irene: - O que aconteceu na coordenação? Ao que Irene simplesmente diz: - Só uma conversa civilizada ao nível da dita mãe. O que deixa quem a ouviu pasmo. Nem a Coordenadora que tá uma pilha de nervos não diz nada e ninguém no momento se atreve a perguntar. O que se sabe é que os gritos ficaram abafados, não houve sangue e nada foi quebrado na professora e, ela estava calma e a Rhyanna não foi a escola porque segundo seus colegas ela levou A Surra da mãe.
Sexta-feira, o dia tão "esperado" por professores, alunos e pais chegou. O dia de entrega de conceitos, dos pais conversarem com os professores e como sempre quem precisava vir não veio. Principalmente aquela mãe que veio dar show, pois bem, a obrigação de Irene acabou e partiu cumprir com a ameaça ...
Já são 20 horas e Irene bate à porta da casa de Rhyanna ao qual, a menina a recebe com um misto de espanto e raiva, pois por culpa da megera estúpida ela estava só o pó da rabiola. Irene entra e já diz: -Chame sua mãe. Ao que a guria responde: - Ela não tá.
Irene se senta numa cadeira na sala-cozinha imunda e a menina aturdida fala que a mãe vai demorar. E a professora responde: - Sem problemas.
Às 21 horas e 30 minutos chega à mãe acompanhada por um homem bêbado e Irene vê o pavor amarelado na cara da garota. E Irene fala: - Você faltou a sua obrigação como mãe hoje. A mulher leva um susto e logo parte para cima, a menina se encolhe, o bêbado cai no chão e o pau quebra.
Os vizinhos só escutam e uma turminha que estava à espreita só escuta boquiaberto a casa tremer e coisas sendo quebradas e gritos, até parece briga de casal. Os adultos falam a turma nunca ouviu casal briga?
E um da turma responde: - Sim, mas não dá professora Bobarene vir apanhar na casa de aluno e esta informação corre mais rápido do que piolho em creche e a rua logo lota e celulares ajudam a clarear a rua de terra batida.
A porta da casa se abre e sai a professora, descabelada e inteira. Ela fecha a porta e sai para rua e o peloto de gente se abre boquiabertos e ela diz: - Espero ver meus alunos na segunda-feira na escola com as tarefas feitas e limpinhos e saí noite a dentro.
Segunda-feira todos já sabem do surto da professora, pois esta m todos os grupos de WhatsApp da cidade. E até onde se sabe ninguém prestou queixa. A direção da escola é orientada a afasta-la e a mesma recusa.
Já na sala de aula ela dá aula normalmente e os alunos estão mais quietos que o normal, fora isso tudo igual.
Irene em seu intervalo chama Gabriel, o dono do caderno com o desenho que lhe chamou a atenção. Ele foge.
Quando ela vai dar aula a sua turma ela o chama a mesa e com o caderno dele a mão ela aponta o desenho e pergunta: - Quem?, o guri arregala os olhos e diz: - Isso não é nada.
Ela continua: - Quem?, ... eu irei te ajudar.
O menino a olha sem expressão e diz: - Mentira.
Ela responde: - Você e todo mundo viu que cumpro minhas promessas.
Ele diz: - Isso não vai adianta.
Irene sorri e diz: - Só tem um jeito de parar isso.
Ele pergunta: - Verdade? Qual?
Ela reponde: - Sim, e você sabe como.
Ele se aproxima mais da mesa e conta tudo, diz que não falou a mãe porque ele, o agressor, bate nela e faz pior com ela.
Todos da sala veem os dois conversando e do menino não tiram nada. Dos olhos do menino veem a costumeira apatia e da professora um brilho incomum que ninguém viu antes.
A semana passa tranquila e todos vão deixando de falar do que aconteceu. Mas, agora ninguém a chama mais de Bobanere e a respeitam como nunca antes. A professora de Matemática destila veneno na sala dos professores, dizendo vou surta também, quem sabe assim sou ouvida, ao que outra professora lhe responde dizem ser bobagem este comentário. E isto se perde nas paredes.
No fim de semana Irene sonda a casa de Gabriel e vê o entra e saí rápido de motos e pessoas, a Boca de Fumo da Vila Mildes, ou como é popularmente conhecida a Vila Merdes porque lá só tem gente de merda que faz merda.
O "tio" do Gabriel "sede" a casa para a função e ele e a mãe vivem nessa situação a muito tempo e estão até os cabelos nisso, situação complicada.
Durante a semana ela vê o garoto e fala: - Leva tua mãe para longe sexta, e só volte quando te chamarem. Assim ele fez, com um misto de expectativa e medo.
Irene chega no início da madrugada na Boca, bate e compra e esquece uma sacola de Coca-Cola na porta, tudo muito rápido. E, lá pelas 3 horas da madrugada ninguém abre mais a porta e é a hora de agir. Ela entra e lá tá ele, o dito tio, e, ela espeta entre os seus dedos do pé uma seringa e nos outros que domem ao lado.
Ela saí, e para aqueles que veem aquela pessoa sair, é só mais um nóia que se perde na noite.
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