terça-feira, 28 de outubro de 2008

Carta aberta ao CEFAPRO

Carta aberta ao CEFAPRO.

Prezados senhores.


Acabo de receber, no local de trabalho onde tento exercer minha profissão de professor, o convite para participar do debate denominado “O desafio do Ensino Médio: Como evitar a evasão escolar dos educandos ?”.
A princípio pensei tratar-se de alguma brincadeira que o CEFAPRO, na falta do que fazer, resolvera nos brindar para alegrar nossas horas-atividades. Depois percebi que era mesmo fato real e verídico: Alguém aí em cima está preocupado com o fato de setenta por centos dos estudantes abandonarem as salas de aulas, deixando os professores e os livros às moscas. E é justamente esta certeza - de que não se trata de uma brincadeira provocativa - o que mais me espanta.
Vamos então aos fatos: Eu sou professor de Língua Portuguesa e Literatura há quase trinta anos. Há quase trinta anos eu vejo o meu salário, assim como a freqüência dos alunos às aulas serem progressivamente diminuídos na mesma simetria. Atualmente eu percebo
(interessante esse eufemismo inventado por algum desocupado na área educacional) o mesmo que recebe o pipoqueiro da esquina , mas, por amor à profissão, digamos , continuo a sobreviver teimosamente neste mister que escolhi por vocação.
Comparando, poderíamos afirmar que recebo um décimo do que ganha qualquer vereador analfabeto para discursar, estraçalhando concordâncias verbal e nominal, uma vez por semana em qualquer Câmara Municipal de nossas cidades. Isso não deve causar espanto, pois um povo analfabeto fatalmente elegerá outro analfabeto que souber balbuciar algumas de suas reivindicações e isso vem de encontro aos anseios dos Governos. Não só deste atual, mas de todos os que já tive o desprazer de vivenciar.
Pois bem. Hoje, quando voltava do caixa eletrônico onde fora retirar meus proventos, que certamente serão subtraídos em 35 % a serem pagos em impostos, tive a oportunidade de observar uma fila quilométrica que rodeava a quadra central da cidade. Eram jovens, homens, mulheres, em pleno vigor da idade esperando a senha para realizar o Provão de Massa. (É assim mesmo que se escreve? Esses palavrões sempre me confundem.)
Esperavam ansiosos a oportunidade de eliminar, em um único domingo, a maior quantidade possível de disciplinas, realizando um teste rasteiro onde deveriam acertar algumas das questões, como se a árdua tarefa de adquirir o conhecimento fosse algo parecido com um jogo de sorte e azar.
Comenta-se à boca pequena que esses sorteios – de – certificados sejam organizados pelos Governos - Federal - Estadual no intento de exibir ao pessoal do BIRD, do FMI, da ONU, da UNESCO e outros órgãos internacionais índices animadores contra o analfabetismo e a escolaridade do povo brasileiro. Sem falar, evidentemente, na economia que o Governo fará sem a necessidade de manter esse mesmo aluno em sala de aula durante os já citados longos três anos de orientação supervisionada pelos professores. Será? Difícil confirmar, pois certas informações dificilmente serão encontradas nos atuais meios de comunicação.
Qualquer ser, por irracional que seja, não poderia fugir da pergunta:
“Qual o jovem que, em sã consciência, podendo solucionar sua vida educacional em um único domingo, se prestaria a freqüentar as aulas do Ensino Médio durante três longos anos?” Pois tempo é dinheiro... principalmente para quem não tem. A resposta viria logo em seguida, límpida, clara e certeira como uma pancada no bom senso: Nenhum. Ninguém.
Um professor poderá discursar maravilhosamente bem, poderá preparar minuciosamente suas aulas, poderá fazer cursos de aperfeiçoamento na China, pintar-se de prata e ouro e até plantar bananeira. Acreditem: Nada, absolutamente nada do que um professor possa fazer, vencerá a sacanagem (desculpem o uso do termo, mas não me ocorre outro mais sugestivo) de presentear o aluno com um certificado de conclusão após um único domingo de sorte ou azar. Já houve tempo em que essa prática resultava em cadeia.
Hoje, está institucionalizada.
Não é estranho que as únicas pessoas que não conseguem ver essa verdade sejam os organizadores do CEFAPRO?
Ademir Borsanelli.

Nenhum comentário: